Vidas Diferentes | Capítulo 1 - Pra mim já chega

segunda-feira, janeiro 13, 2014 | | |


 Entrei no meu quarto fechando a porta com tudo. Me encostei com a cabeça inclinada para cima sob a porta. Dava para ouvir minha mãe gritando lá embaixo.

 Bufei e me joguei na cama. Eu não queria nem pensar na vergonha que ela me fez passar hoje! Minha vontade era de gritar! Ouvi alguém bater na porta e logo em seguida entrando. Levantei  a cabeça e vi meu padrasto, Tyler, fechando a porta calmamente. Me sentei na cama fazendo perna de índio, ele se sentou do meu lado.

- Por que você fez aquilo? - perguntou tranquilo.

- Sou adolescente. Tenho que curti a vida - dei de ombros, desviando o olhar.

- Seunome, você não é rebelde assim - me olhou sério. - É uma menina de atitude, mas educada e responsável.

 Ele dizia sem levantar nem um pingo de voz. Isso sempre me fazia pensar em alguma besteira que eu fiz e no que falar. Tyler é um cara legal, mas sabe ser justo e dar ótimas broncas.

- Eu nunca fiz nada de errado - falei depois de um tempo em silêncio. Me levantei ficando de frente pra ele. - Só queria ir a uma festa com os meus amigos.

- Isso não justifica você ter fugido daquele jeito depois de sua mãe ter dito não - disse ainda sentado.

- Já tenho 18 anos. O que ela achou que eu ia fazer? Me embebedar e sair me prostituindo por ai?! - perguntei irônica.

- Não é hora para brincadeiras. Você sabe muito bem o que fez no ano passado.

- Só bebi daquele jeito porque ELA havia me deprimido - me joguei na cadeira do meu computador e peguei o peso de papel que estava em cima da mesa. - Eu era de menor, mas fazer o que se tinha algumas garrafas aqui em casa?

 Ele se levantou, pegou o peso, colocou de volta na mesa e me levantou com uma de suas mãos.

- Já chega dessas brigas de vocês duas. Você vai lá embaixo agora e conversar  com a sua mãe - ordenou abrindo a porta.

- Mas Tyler... - resmunguei.


- Mas nada. Seunome, desce agora.

 Bufei e sai batendo o pé. Ele veio atrás de mim. Minha mãe estava na sala assistindo TV emburrada.

- Ahh, veio pedir desculpas por sua malcriação? - perguntou ao me ver.

 Parei no meio da sala sem dizer nada e cruzei os braços.

- Andréia, por favor - Tyler pediu.

- Desculpa por ter sair sem permissão. Mas não tiro a minha razão - completei baixinho.

- Como é que é? Parece que eu não ouvi direito. Você tem alguma razão?

- Sem discussão, por favor - Tyler insistiu.

- Tyler, você queria que eu viesse pra falar com ela, então me deixa falar - olhei pra ele e depois pra minha mãe. - Você me envergonhou na frente de meus amigos.

- Se você chama aquilo de amigos, que te fazem sair escondido de casa. A única que se salva é a Fernanda.

- Eles são MEUS amigos desde sempre, eu fui escondido porque eu quis, eles nem sabiam disso, e a Fernanda também estava lá. Todo mundo estava.

- Mas você não é todo mundo.

- Ah, é claro - bufei. - Era a festa de aniversário da Pamela, eu não ira perder. Você não podia me tirar de lá aos berros!

- Claro que podia. Sou sua mãe! E você deve me obedecer enquanto estiver debaixo do meu teto!

- Ok. Se for assim, eu vou ir morar com o meu pai! - falei e ela fez uma expressão de surpresa e espanto.


- Seu pai não se importa com você - protestou.

- Tudo bem que faz tempo que ele não liga, mas quem deu aquele computador de aniversário de 18 foi meu pai, não foi? Então, pelo menos ele lembra e deve se importar sim!

- O que está acontecendo?

 Todos nos olhamos espantados. Na ponta da escada Molly bocejava.

- Ei, bonequinha, o que está fazendo aqui a essa hora? - perguntei me agachando na sua frente.

- Não consegui dormir mais - coçou os olhos.

 Molly tinha sete anos. Era filha da minha mãe com o meu padrasto, mas nós duas somos muito apegadas.

- Desculpa. Deve ter sido quando eu bati a porta, ou os gritos - falei e ela sorriu.

- É melhor as duas irem dormir, já passam das meia-noite - Tyler veio até nós duas.

 Ele pegou Molly no colo e subiu. Fui atrás dele, nem olhei para minha mãe. Entrei no meu quarto e deitei na cama.

 Suspirei fundo. Não sei porque a gente briga tanto. Nunca faço nada de errado, sempre obedeço. Mas já chega disso. Vou ir embora, ir morar com o meu pai.

 Meus pais se separaram quando eu tinha 3 anos. Na época eu não entendia nada, mas lembro de ter chorado bastante. Meu pai é britânico e se mudou de volta para Londres. Minha mãe fala que ele não liga pra mim, mas não acho isso. Ele sempre me telefona, me manda presentes e já veio me visitar uma 5 vezes.

 2 anos depois da separação, minha mãe começou a namorar o Tyler. 4 anos depois eles se casaram, e no ano seguinte nasceu a Molly. Eu tinha 10 anos, fiquei animada em ter uma irmã. E também eu tinha o Tyler, que me criou como se fosse sua filha. Sempre brincamos, saiamos, ele me ajudava com do dever da escola, e até me colocou num curso de inglês. Isso porque ele é americano - acho que minha mãe adora um gringo (risos) - e tem uma casa em Nova York, onde passamos alguns dias do ano.

- Posso entrar? - perguntou Tyler, colocando só a cabeça pra dentro do quarto.

- Claro - falei, me sentando.

- Você sabe que está errada. Além do más, as duas estão.

- A Molly já dormiu? - perguntei, ele assentiu e sentou do meu lado. - Tudo bem, eu posso ter errado em ter fugido, mas minha mãe está me sufocando. Ela não deixa eu fazer mais nada - fiz uma pausa. - Já me decidi. Eu vou ir pra Londres com o meu pai.

- Certeza? - assenti decidida. - Está bem - suspirou. - Você já de maior de idade, e deve saber o que está fazendo.

 Ele me deu um beijo na testa e saiu fechando a porta atrás de si. Me deitei, coloquei a coberta por cima da cabeça e dormi.

 No dia seguinte, depois de levantar, eu liguei para meu pai. Nós conversamos e ele disse que eu poderia ir hoje mesmo pra Londres. Alguém bate à porta.

- Pode entrar - falei e Molly entrou. - Bom dia, Molly - sorri.

- Bom dia, Seuapelido. É pra você descer para tomar café.

- Mô, depois vou precisar conversar com você.

- Pode falar.

- Agora não. Primeiro tenho que falar com os nossos pais. Vamos descer.

 Descemos pra cozinha. Vou ter que falar com a Molly com jeito. Eu sempre cuidei dela quando saíamos, é comigo que ela passa a maior parte do tempo.

- Bom dia - disse minha mãe, quando entramos no cômodo.

- Bom dia - me sentei na cadeira ah vá!. Molly se sentou do meu lado, como sempre.

- Bom dia também - disse Tyler, pegando um pão.

- Bom...

[...]

 Tomei meu café em silêncio. Quando eu já estava quase terminando, foi que eu falei:

- Liguei para o meu pai. Ele disse que posso me mudar para a Inglaterra hoje.

- Então você vai mesmo? - minha mãe pergunta, com receio.

- Sim. Eu não estava brincando.

 Pude perceber uma ponta de ressentimento em seu rosto.

- Você vai embora?

- Sim, Molly.

- Eu vou ficar sozinha? - perguntou tristonha.


- Hey! - olhei pra ela. - Vem, bonequinha. Vamos pro meu quarto.

 Ela pegou na minha mão e nós duas subimos. Peguei as minhas 2 malas e uma maleta em cima do guarda-roupa, e as coloquei na cama.

- É muito longe?


- Infelizmente pra nós duas, sim - suspirei. Uma lágrima escorreu pelo seu rosto pequeno. - Own, não precisa chorar - sequei a lágrima com a manga da minha blusa.

- Mas você vai embora e a gente não se ver mais - soluçou.

- Bem... É que eu preciso tomar um caminho na minha vida. Faz tempo que não vejo o meu pai. Quero passar um tempo com ele agora. Entende? - ela assentiu meio em dúvida. - E quem disse que não nos veremos mais? Vou vir te visitar... Vamos até fazer uma guerra de bola de neve no Natal em Nova Iorque, como sempre fizemos - sorri.

- Jura?

- Com certeza! De dedo mendinho - levantei meu dedo mendinho e ela entrelaçou o dela no meu. Rimos. - E no mês que vem tem o seu aniversário. Você acha que eu vou perder?

- Não - disse, abrindo um sorriso.

 Comecei a fazer cócegas nela, que deitou na cama de tanto rir.

- Quer me ajudar a fazer as malas? - perguntei.

- Sim! - disse ainda rindo.

 Fui até o guarda-roupa, peguei uma mão cheia de roupa e joguei na cama. Molly fez a mesma coisa. Eu sorri, e nós duas começamos a arrumar tudo dentro da mala.

[...]


- Seunome, anda! Se não vamos nos atrasar! - Tyler me gritou.

 Peguei a última mala que estava no quarto e desci.

- Pronto.

- Liguei para o aeroporto e disseram que têm um voou para Londres que sai às 14:00 hs - minha mãe colocou o telefone no gancho.

- Então já podemos ir. São 13:15 ainda.

 Todos nós entramos no carro. Os três - minha mãe, Tyler e Molly - quiseram me acompanhar até o aeroporto.

 Chegando lá, Tyler e minha mãe foram comprar a passagem, enquanto eu e Molly ficamos no saguão. Fui até a lanchonete que havia ali, e comprei um sorvete para nós duas. Olhei o relógio e já eram 13:44. Da minha - agora ex - casa até aqui, são mais ou menos 30 minutos.

- Pra onde você vai é legal? - Molly perguntou distraída com o seu sorvete.

- Não sei... Dizem que Londres é perfeita.

- Aqui está a passagem. É melhor você ir, faltam 15 minutos para o avião decolar - Tyler me entregou a mesma.

- Tchau, Molly, minha bonequinha - a abracei forte e ela retribuiu o aperto. - Te amo tá? - dei um beijo em sua testa.

- Tem certeza de não quer almoçar antes? Pode viajar mais tarde - minha mãe insistiu.

 A gente brigava, mas dava pra perceber que estava triste. Mesmo com as implicâncias e proteção exagerada, eu gosta da minha mãe e a amo muito.

- Não. Eu como no avião - respondi. A olhei por uns instantes e a abracei. Ela retribuiu. Pude sentir um sorriso formando em seu rosto. - Eu te amo! - a "desabracei".

- Eu também te amo, filha - sorriu.

 E por fim. Abracei o Tyler. Minha cabeça batia em seu peito, já que ele era alto. Ele colocou uma de suas mãos na minha cabeça e apertou. Eu retribui.

- Se cuida. Logo, logo nos veremos de novo.

- Com certeza. Pai...

 Sim, ás vezes eu o chamava de pai. Foi ele que cuidou e me deu carinho desde pequena. Me afastei e fui em direção à porta de embarque. No último momento, me virei, acenei e mandei um beijo no ar pros três, que fizeram a mesma coisa. Dei um último sorriso e embarquei.

CONTINUA...

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Oi carrots!
Aqui está o primeiro capítulo :) Teve poucos gifs, não é? O próximo terá mais. Até :)
Bjão 


Um comentário:

  1. Só vim aqui pra roubar um gif teu, e ja acabei lendo o capítulo todo e me apaixonando e cara. Quero mais!❤

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